“Por natureza, todos os homens desejam conhecer. Prova disso é o prazer causado pelas sensações, pois mesmo fora de toda utilidade, nos agradam por si mesmas e, acima de todas, as sensações visuais. Com efeito, não só para agir, mas ainda quando não nos propomos a nenhuma ação, preferimos a vista a todo o resto. A causa disto é que a vista é, de todos os nossos sentidos, aquele que nos faz adquirir mais conhecimentos e o que nos faz descobrir mais diferenças.”1 – Aristóteles, Metafísica

A obra estabelece uma nova hierarquia de valores. O olho solitário, ciclópico, em posição central e dominante no topo. Este olho está colocado acima da orelha também única que é sustentada pela boca que, por sua vez, é sustentada por dois narizes. Magritte apresenta uma nova configuração corpórea fragmentada e hierarquizada, ao mesmo tempo surreal e bastante realista.
Ao ler o quadro A Raça Branca, de Magritte, junto com Chauí2, vemos que o olhar usurpa os outros sentidos. Não à toa, o léxico da visão predomine tanto em expressões corriqueiras, para as quais muitas vezes nem atentamos:
Falamos em amor à primeira vista, sem que nos preocupe havermos, assim, atribuído poder mágico aos olhos, poder em que acreditamos se falarmos em mau olhado. Aceitamos discordâncias dizendo que cada qual tem direito ao seu ponto de vista ou à sua perspectiva, sem causar-nos estranheza o crermos que a origem das opiniões dependa do lugar de onde vemos as coisas e sem que nos detenha a palavra “perspectiva”. – Marilena Chauí, 1988
Freud aponta em O Mal-Estar na Civilização (1930)3 para a íntima relação entre a perda do olfato – por conta da posição de bípede de nós humanos – e uma sexualidade regida primordialmente pela visão. Para o psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge, “se por um lado o olfato desempenhava seu papel num funcionamento instintivo cujo automatismo visava o desencadeamento da cópula com fins reprodutivos, a visão, passando para o primeiro plano das trocas entre indivíduos, torna a atividade sexual não mais regida por ciclos periódicos e, sim, espraiada por toda a existência dos sujeitos”4. Assim, para os autores, é na passagem do olfato à visão que passamos do funcionamento dos instintos para o funcionamento das pulsões. Para Coutinho Jorge, é essa passagem que “funda o humano” e que “constitui uma matriz para o funcionamento pulsional, na medida em que a pulsão é definida por Freud como uma força constante.”
Para Chauéi, “o olhar usurpa os demais sentidos fazendo-se cânone de todas as percepções é por que, como dizia Merleau-Ponty, ver é ter à distância”. O olhar, com seu caráter háptico, toca as coisas, repousa sobre elas, mas delas não se apropria, se esvai. Assim, para a autora, o olhar “resume e ultrapassa os outros sentidos porque os realiza naquilo que lhes é vedado pela finitude do corpo, a saída de si, sem precisar de mediação alguma, e a volta a si, sem sofrer qualquer alteração material”. Não à toa, para os filósofos pré-Socraticos Epicuro e Lucrécio, os olhos são jaulas que capturam e aprisionam os pequeninos simulacros voejantes — os eidola5.
Como representação de um sintoma da nossa cultura, Magritte não poderia ter sido mais preciso como no quadro em questão. A primazia do olhar denota a primazia do imaginário, reino do eu. Para Lacan, existem três registros: o real, o simbólico e o imaginário. O real é o que está na base do nosso desejo inconsciente, que comanda o sujeito (nossas pulsões). O simbólico representa o campo da cultura, da linguagem, do sujeito que fala (je). E, por fim, o imaginário, terreno do eu (moi), objeto.
A função do eu, portanto, está baseada na percepção que se tem da imagem refletida no olhar da mãe (como uma metáfora de um primeiro espelho). O bebê quando se depara com um espelho, não entende que aquela imagem seja ele. Ele a enxerga como a imagem de um corpo, uma forma, uma gestalt. Para que essa gestalt se unifique existe todo um processo de desenvolvimento. Essa integralidade – passagem de um corpo despedaçado, desintegrado –começa a se delinear de um topos que denominamos de narcisismo. Desse modo, a síntese, a que Lacan chamou de Estádio do Espelho6 (passagem que acontece entre os seis e dezoito meses de vida), revela a configuração do eu do sujeito. Para que isto ocorra é necessário um estímulo externo a partir de um semelhante (a mãe). Lacan deduz disto que, em princípio, inicialmente, todo eu é um Outro.
A imagem que o lactante vê refletida é ao mesmo tempo sua e do outro – a criança é como o outro, o outro do espelho; na sua forma invertida, a criança se vê e se observa pela primeira vez. Lacan destaca em seu texto a importância da postura ereta do bebê, primado da visão. Deste modo, instaura-se o desconhecimento que todo ser humano tem em relação à verdade do seu ser e à profunda alienação da imagem que irá fazer de si mesmo. Nesse momento de desenvolvimento, o imaginário se inscreve de forma velada no formato de uma identificação idealizada – eu ideal.
O apelo à imagem na nossa cultura tem um reflexo direto no engrandecimento do imaginário, do eu, em detrimento do simbólico e do real. Esse engrandecimento amplia a dimensão narcísica do sujeito. Platão dizia que “o olho, ao considerar e olhar outro olho, na sua melhor parte, assim como a vê também vê a si mesmo”4, assim, o reino das imagens, a chamada sociedade do espetáculo nada mais é do que o reino dos espelhos em sua dimensão sígnica. Assim, ama-se com o eu no palácio das miragens o objeto irremediavelmente perdido.
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Notas e referências bibliográficas
1 Aristóteles, Metafísica, A 980, 21-5.
2 CHAUI, Marilena. Janela da alma, espelho do mundo. Publicado em 1988. Disponível em: https://artepensamento.com.br/item/janela-da-alma-espelho-do-mundo/. Acesso em 03 de janeiro de 2021.
3 FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011. [1930]
4 COUTINHO JORGE, Marco Antonio. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2000
5 Lucrécio, De Rerum Naturae, IV, 45.
6 LACAN, Jacques. «O estádio do espelho como formador da função do eu». In: Escritos (1901-1981). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998
7 Platão, Primeiro Alcibíades, 133a-c.